Cuidado com os especialistas, por pr. Antonio Mendes

Chamou-me ​à atenção uma entrevista dada pelo Prefeito de São Paulo​, João Dória, que questionado sobre as suas iniciativas, respondeu à jornalista: “​Lá vêm vocês com as opiniões dos especialistas. Provavelmente​, vocês as ouvem para reforçar, tão somente, o que querem e pensam”. Não foram literalmente essas palavras, mas a ideia foi essa.
Estou cansado de ouvir o que dizem os especialistas no que concerne à obediência dos princípios bíblicos. Eles querem minar a beleza da igreja. Como por exemplo, já não realizam mais a EBD (Escola Bíblica Dominical) ​em suas igrejas, pois, como entendidos do assunto​, a julgam ​como algo ultrapassado. Reunir o povo de Deus pela manhã e à​ noite é demais. Reúnem-se ​pela manhã ou ​somente​ à noite. Segundo eles​, podemos concluir que a igreja primitiva era exagerada.
Os especialistas estão cada vez mais atuando na destruição da família, justificando o ​divórcio e o ​recasamento como algo que precisa ser aceito​, porque o mundo mudou e não podemos ficar tão ultrapassados. ​Colocam em cheque a inspiração de alguns textos bíblicos pois vivemos em uma outra época, instituem uma nova classe de líderes para a igreja sem observar as qualificações que a Palavra de Deus exige, e não aplicam mais a disciplina bíblica. Fazem do culto um show, a fim de atender a uma clientela exigente​ que não quer ser incomodada com a Palavra.
Querem saber o mais grave de tudo isso? Tem muita gente ouvindo essas pessoas, pois elas têm a tarefa de promover um evangelho sem sofrimento, sem compromisso e sem transformação. Infelizmente, ​muitos ouvem os que trabalham arduamente com a finalidade de diminuir a altura do cercado das ovelhas e, com isso, promover a alimentação em pastos contaminados.
Paulo nos apresenta os especialistas de sua época: Sabe, porém, que nos últimos dias haverá tempos difíceis; pois os homens amarão a si mesmos, serão gananciosos, arrogantes, presunçosos, blasfemos, desobedientes aos pais, ingratos, ímpios, sem afeição natural, incapazes de perdoar, caluniadores, descontrolados, cruéis, inimigos do bem, traidores, inconsequentes, orgulhosos, mais amigos dos prazeres do que amigos de Deus, com aparência de religiosidade, mas rejeitando-lhe o poder. Afasta-te também desses (2Timóteo 3.1-5​).

Pr. Antonio Mendes


Casado com Cida Mendes, pai de três filhos e avô de quatro netos.
Pastor da Primeira Igreja Batista de Atibaia há 37 anos.
Presidente/ fundador do Ministério Pregue a Palavra
Foi presidente da Ordem dos Pastores Batistas Secção São Paulo, Presidente da Convenção Batista do Estado de São Paulo e membro da Junta de Missões Mundiais da CBB.

Por qualquer um, mas não de qualquer jeito. por pr. Nelson Galvão

Em abril de 2013, no seu primeiro discurso ante o Comitê da Bíblia do Vaticano, o Papa Francisco afirmou que somente a Igreja é capaz de interpretar corretamente as Escrituras. Citando um texto do Concílio Vaticano II, a Constituição 'Dei Verbum', o pontífice advertiu: "O Concílio lembrou com grande clareza: tudo o que está relacionado com a maneira de interpretar as Escrituras está, em última análise, sujeito ao julgamento da Igreja, que realiza o seu mandato divino e o ministério de preservar e interpretar a palavra de Deus".

A interpretação e a Reforma Protestante

Bem, desde a Reforma Protestante no séc. XVI a Igreja Protestante vem se posicionando absolutamente contra tal imposição da Igreja Católica. Os reformadores afirmaram em alto e bom som que SIM! Sim, a Palavra de Deus, pode ser interpretada corretamente por qualquer pessoa regenerada. Lutero se opôs veementemente contra a tradição eclesiástica e cria que somente a Bíblia poderia definir os dogmas. Em 1521, diante da Dieta de Worms, convocada pelo imperador alemão Carlos V, Lutero se recusou a retratar-se e afirmou:
"A menos que eu seja convencido pelas Escrituras e pela razão pura e já que não aceito a autoridade do papa e dos concílios, pois eles se contradizem mutuamente, minha consciência é cativa da Palavra de Deus. Eu não posso e não vou me retratar de nada, pois não é seguro nem certo ir contra a consciência. Deus me ajude. Amém". (Bettenson, 2001: 304)
Calvino também se posicionou contrário à imposição da Igreja sobre a interpretação da Bíblia. Em suas Institutas ele afirma:
“Entre a maioria, entretanto, tem prevalecido o erro perniciosíssimo de que o valor que assiste à Escritura é apenas até onde os alvitres da Igreja concedem. Como se de fato a eterna e inviolável verdade de Deus se apoiasse no arbítrio dos homens!” (Calvino, 1984, Vol I: 82)
Faltaria aqui espaço para mencionar outros importantes reformadores que também afirmaram veementemente a autoridade máxima das Escrituras em detrimento da imposição hermenêutica da Igreja.

O que é mesmo “livre interpretação das Escrituras”?

Todavia, a livre interpretação das Escrituras tem sido mal compreendida. É muito comum sermões que absolutamente desconsideram o sentido do texto sagrado, a partir do seu contexto histórico-gramatical. Este é interpretado a partir da criatividade do pregador que assevera ter a liberdade de atribuir às Escrituras o sentido que mais considera conveniente.
Não é isso que significa o conceito de “livre interpretação das Escrituras”. Este conceito refere-se ao fato de que não existe autoridade que detenha o monopólio da interpretação bíblica. A autoridade é a própria Bíblia. A Bíblia interpreta a Bíblia e qualquer pessoa regenerada pode interpretá-la corretamente.

Por que as Escrituras precisam de interpretação?
Faz-se necessário considerar que as Escrituras possuem uma natureza divina e uma natureza humana (2 Pe 1.19-21). Divina porque é a Palavra de Deus para todos os homens, em todas as épocas e em todos os lugares.
Em relação ao elemento humano das Escrituras, existem enormes desafios para os intérpretes. A parte mais jovem das Escrituras data de 2000 anos atrás. Ela foi escrita em três línguas diferentes, em lugares que a maioria de nós nunca esteve, em uma cultura que o mundo Ocidental desconhece. É por isso que Zuck (2008) e Paul Ricoeur (in Osborne: 2009) chamam essas dificuldades que se colocam diante da tarefa da interpretação de “abismos”.
Ao que parece a denominação “abismos” é inadequada, porque denota intransponibilidade e não é esse o caso. Dessa forma, a sugestão de Osborne (2008) parece ser mais pertinente: “distâncias”.
Assim, acredito na possibilidade da transposição dessas distâncias de tempo, lugar, cultura, língua. Contudo essa tarefa não pode ser feita de qualquer jeito. Ela demanda um extenso estudo espiritual, cuidadoso esforço e profunda dedicação.
É aí que vem um grande problema: nem todos os líderes estão dispostos a fazer esse estudo! Uns por se acharem incapazes, outros por mera preguiça intelectual, outros ainda, por acreditar que o estudo não é uma tarefa espiritual.

Atrocidades na interpretação da Bíblia

Em todo caso, diante da falta de estudo ao interpretar as Escrituras, têm-se acarretado verdadeiras atrocidades em relação à Palavra de Deus, atribuindo ao texto Sagrado o que este nunca disse.
Alguns erros são muito comuns ao se interpretar as Escrituras. Entre estes estão: alegorização, subjetivização e a espiritualização. Gostaria de me deter especialmente no segundo erro, a subjetivização.
O método de interpretação das Escrituras conhecido como subjetivização foi influenciado pela filosofia existencialista de Martin Heidegger (1889-1976) e desenvolvido pelo teólogo alemão Bultmann (1884-1976), o expoente da Escola de Interpretação conhecido como Nova Hermenêutica.
De acordo com esse método, o sentido do texto sagrado é o seu significado para o leitor de hoje, cidadão do séc. XXI, e não a intenção do autor, ou o que o texto falou aos seus leitores originais. Assim, o que mais se houve é: “esse texto significa isso pra mim”. E se esse significado não estiver de acordo com o significado que outra pessoa atribuiu ao texto, não tem problema, porque o que importa é o que o texto significa para cada um!
Embora a maioria das pessoas no Brasil não conheçam esses nomes, muitos têm inadvertidamente usado seus métodos de interpretação.
Assim, aquele que prega no texto em que José é lançado pelos seus irmãos no poço (Gn 37), dirige-se aos seus ouvintes e pergunta: “Que poço da vida você se encontra?”. Ou aquele que lê sobre a luta de Davi com Golias (1 Sm 17), e apressadamente se coloca no lugar de Davi e diz: “Vou vencer os gigantes (problemas) que tem se levantado contra mim”. Ou até mesmo aquele professor de curso de crescimento de igreja que usa o livro de Neemias para dar estratégias de crescimento, como a identificação dos “muros que precisam se reconstruídos da devocional”!!!!
Outro dia me encontrei em uma roda de colegas e o líder da reunião propôs a leitura de um texto das Escrituras. A partir da leitura cada um teve a chance de colocar suas impressões a respeito do que foi lido. As interpretações foram das mais variadas possíveis e, ao final, o líder da reunião concluiu: “estou feliz que cada um tenha tirado suas próprias lições do texto”.
O problema desse método é que ele nega a objetividade da verdade, e sujeita o texto à subjetividade da mente criativa do leitor. Para estes, o importante não é a mensagem real do texto, mas o sentido atribuído a ele.
Diante dessa atitude espúria de interpretação das Escrituras, precisamos afirmar e reafirmar que a Bíblia é a Palavra de Deus escrita para todos os homens, em todas as épocas e em todos os lugares. É exatamente por isso que ela precisa ser estudada com todo o zelo e cuidado.
Esse cuidado refere-se à busca do sentido do texto, buscando a intenção do autor e o que os leitores originais entenderam, por intermédio de um estudo do contexto histórico-gramatical, para então, e somente então, aplica-lo ao homem moderno. Afinal, o chamado do pregador é que este pregue a Palavra (2 Tm 4.2) e não as impressões que ele tenha a respeito.

Irmãos, qualquer pessoa pode interpretar as Escrituras, mas não de qualquer jeito, porque então não teremos a Palavra de Deus, mas a palavra do homem.

Pr. Nelson Galvão
Sola Scriptura

Nelson é casado com Simone desde 1997 e eles têm um filho. Ele é formado em História e Teologia, pós-graduado em Administração Escolar e mestre em Educação (PUC-SP). Atualmente faz mestrado em Teologia do Novo Testamento no Seminário Bíblico Palavra da Vida- Atibaia, SP. 
É pastor interino da Igreja Batista Sião (São José dos Campos-SP) e atua como diretor acadêmico do ministério Pregue a Palavra. 
Atua ainda como coordenador do grupo do Pregue a Palavra de Cuba e como professor convidado da Escola de Pastores PIBA.

Os Caminhos Tortuosos da hermenêutica feminista, por pr. Wagner Ferreira

Uma boa hermenêutica vai contribuir inimaginavelmente para que todo estudante da Bíblia consiga entender melhor uma determinada passagem. Porém existem hermenêuticas comprometidas com pressupostos liberais e elas trouxeram uma grande influência no meio evangélico.  Este artigo aborda os fundamentos da hermenêutica feminista que tem suas premissas básicas nas ideias liberais, assim o leitor entenderá algumas intepretações a respeito do papel da mulher na igreja.
A hermenêutica cuidadosamente aplicada a um texto bíblico dará ao intérprete a capacidade de conhecer a intenção do coração de Deus numa determinada passagem. Por isso é fundamental que a hermenêutica adotada leve o estudante o mais próximo possível do significado da passagem e rejeite que tudo o que coloca em dúvida as declarações das Escrituras.

Hermenêutica feminista

            Sendo uma hermenêutica política de gênero, dotada de uma munição teórica da ‘crítica das ideologias’, a hermenêutica bíblica feminista colocou em dúvida toda uma tradição de opressão e dominação. Essa embrionária abordagem visou desconstruir leituras, que estavam sedimentadas por um processo histórico interpretativo de tradição fundamentada na elaboração de uma estrutura e sociedade patriarcal. Esses avanços, segundo a perspectiva feminista ofereceram novos rumos e provocaram novas críticas para a pesquisa bíblica latino-americana, abrindo margens para novas reflexões acerca do método exegético-historiográfico.  Sua origem é o casamento da revolução industrial no século 19 e a disseminação das ideias de Candy Stanton.  Candy, nasceu nos Estados Unidos em 12 de novembro de 1815. Ela pertencia a uma família escocesa cuja tradição religiosa era calvinista e bastante rígida. Quando criança,  passava a maior parte do tempo no escritório do juiz Candy, seu pai, ouvindo-o explicar leis a clientes. No entanto, o que mais chamava a atenção de Candy Stanton era que muitas mulheres o procuravam, geralmente agricultoras idosas pobres ou lavadeiras, cujos maridos tomavam o dinheiro delas para gastar com bebedeiras, quando não hipotecavam ou vendiam a casa onde moravam sem consultá-las, e mesmo assim a lei protegia os maridos.

 OS  PRESSUPOSTOS DA HERMENÊUTICA FEMINISTA

Silvia Schroer em seu livro “Exegese Feminista” insiste na existência de uma sociedade patriarcal na comunidade israelita e na religião de IHWH[1]. Então, ela supõe que a ausência de temas feministas no Antigo Testamento é a tradição androcêntrica enraizada no coração da religião predominante[2]. Porém houveram grupos influentes que criticavam o patriarcalismo e isso pode ser visto na “QUETURA” (contrato de casamento com definições das regras financeiras em caso de divórcio), de Salomé Alexandra, século I a.C. Segundo Schroer os textos do Antigo Testamento devem ser lidos com uma hermenêutica ceticista, porque surgiram num mundo patriarcal, sob perspectivas puramente androcêntricas[3], daí surgem as chaves para compreender a leitura feminina do Antigo Testamento, sendo estas: 1. Experiências de mulheres de hoje, podem tornar-nos sensíveis ao pano de fundo de textos aos quais os próprios textos não citam. Assim as histórias das filhas de Ló é aparentemente uma história de duas mulheres que querem mudar a sua descendência dormindo com seu próprio pai, entretanto, conforme seu pano de fundo se trata da história de um incesto[4]; 2. Textos diferentes podem mostrar perspectivas diferentes acerca do mesmo assunto e assim podemos aprender das contradições. Por exemplo, de fato círculos sacerdotais controlavam fortemente a sexualidade feminina através de seus modelos de puro e impuro e grupos proféticos tendiam a uma difamação polêmica do erótico e da sexualidade, mas o Cântico dos Cânticos mostrou-se totalmente livre de tudo isso[5]; 3. As informações de textos bíblicos podem ser corrigidas, relativizadas ou até mesmo desmentidas com a ajuda não só de outros textos bíblicos, mas também por meio de textos extra bíblicos, de material arqueológico e iconográfico[6]; 4. Na reconstrução da história dos seguidores de YHWH ou dos israelitas em geral, os documentos bíblicos devem ser avaliados com ceticismo e cuidado, porque foram escritos por aqueles que sabiam escrever e assim documentam suas opiniões[7]; 5. Elizabeth Fiorenza, em seu livro As Origens Cristãs a Partir Da Mulher, aprofunda ainda mais os pressupostos para uma abordagem feminista da Bíblia. Ela afirma o seguinte:


“A formulação de uma hermenêutica histórica feminista deve não só traçar a mudança cultural geral de um paradigma androcêntrico para um paradigma feminista de construção e mudança da realidade, mas também discutir modelos teóricos da hermenêutica bíblica e suas implicações para o paradigma cultural feminista”[8].


Portanto, para isso algumas abordagens se fazem necessárias:

Hermenêutica doutrinal

Para Fiorenza este modelo “entende a Bíblia em termos de revelação divina e autoridade canônica. Contudo, concebe a revelação e autoridade bíblica em termos dogmáticos a-históricos”[9]. Quanto ao seu modus operandi, ela explana que “seu modo de proceder é fornecer por meio de textos de provas a autoridade ou racionalização teológica última para uma posição já tomada”[10] e que “como Escritura, a Bíblia funciona como um oráculo que revela verdades atemporais e respostas definitivas para as questões e problemas de todos os tempos”[11].

Exegese histórica positivista

      Fiorenza entende que esta abordagem “desenvolveu-se em confronto com as reinvindicações dogmáticas da Escritura e a autoridade doutrinal das igrejas”[12], sendo portanto, “modelada pela compreensão racionalista das ciências naturais [...] busca conseguir uma leitura meramente objetiva dos textos e uma apresentação científica dos “fatos históricos”[13].

Interpretação hermenêutica dialógica

Fazendo o contraponto com a exegese positivista, esta abordagem faz uma ponte, pois, afirma Fiorenza, “este modelo leva a sério os métodos históricos desenvolvidos pelo segundo modelo, refletindo ao mesmo tempo entre o texto e a comunidade, ou texto e intérprete”[14]. Portanto:
“Embora o intérprete aborde um texto histórico com experiências e questões contemporâneas específicas, o estudioso deve tentar ficar o mais possível livre de uma compreensão preconcebida dos textos, ainda que seja impossível separar-se completamente de toda compreensão prévia”[15].

Intepretação bíblica a partir da crítica feminista

Feministas pós-bíblicas argumentam que:
“as injunções paulinas são sinais de que a teologia e a fé cristã eram sexistas em estágio muito primitivo, e que a interpretação feminista revisionista está, pois, fadada ao insucesso, apologetas cristãos respondem defendendo Paulo como “liberacionista”. Os escritos de Paulo bem compreendidos e interpretados, defenderiam a igualdade e a dignidade das mulheres. Não a mensagem paulina, mas sua deturpação patriarcal ou feminista é que pregaria a subjugação das mulheres”[16].
            Fiorenza assevera ainda que:
“essa amostragem da defesa de Paulo na exegese moderna indica não apenas caráter androcêntrico de intepretação acadêmica das Escrituras, mas também sua função patriarcal. Para manter a autoridade dos textos paulinos que sustentam a subordinação das mulheres, os exegetas se acham preparados para justificar Paulo a qualquer custo”[17].
            Pois em sua análise, fazendo uma crítica à apologética acadêmica de que a “chamada apologética acadêmica despreza, porém, o fato de que a tarefa do historiador não consiste na justificação teológica de Paulo, mas na redescoberta da vida e práticas das comunidades cristãs primitivas”[18]. Entretanto, para ela, “os estudiosos não podem mais continuar ignorando as implicações políticas de seus modelos [...] Introduzir ‘diferenciação sexual’ como categoria interpretativa requer conhecimento da crítica feminina desta categoria”[19].
Fiorenza se refere à Candy Stanton em sua apresentação dos 3 argumentos para a necessidade de uma intepretação feminista[20]:
1) No transcorrer da história e ainda hoje, a Bíblia é usada para manter as mulheres na sujeição e impedir sua emancipação.
2) Não somente homens, mas sobretudo as mulheres são as crentes mais fiéis na Bíblia como a palavra de Deus e não homens, mas também para as mulheres a Bíblia tem autoridade numinosa.
3) A reforma somente é possível na sociedade se for promovida em outras áreas, por isso uma intepretação crítica feminista é um “esforço político necessário”[21]. Acredita-se que a verdadeira mensagem estava obstruída pelas traduções e interpretações de varões. Como ela coloca: nas palavras de Lucrécia Mott[22] é possível observar os anseios por uma intepretação liberta da misoginia:
“Passamos tanto tempo alfinetando nossa fé nas mangas de outros, que temos de começar a examinar essas coisas diariamente por nós mesmas, para ver se são assim, e comparando texto com texto, devemos descobrir que se deve por nele uma construção bem diferente”[23].

E conforme ela coloca: “Candy Stanton concordaria que as intepretações acadêmicas da Bíblia são masculinamente inspiradas e precisam ser ‘despatriarcalizadas’”[24], pois “ela insiste que a Bíblia foi escrita por varões e reflete o interesse masculino de seus autores”[25].
Ela ainda afirma que a Bíblia não pode ser reinterpretada como um todo, pois há princípios éticos que são perenemente válidos, como por exemplo: o amor. Ela não exige nem a rejeição e nem a aceitação total da Bíblia. Ao invés, toda passagem bíblica sobre as mulheres deve ser cuidadosamente avaliada e analisada por causa das suas implicações androcêntricas. As conclusões objetivas dela são: 1. O texto bíblico é androcêntrico, visto que varões puseram seu selo na revelação bíblica; 2. A revelação divina está articulada em linguagem humana historicamente limitada e culturalmente condicionada; 3. Deve-se impor um modelo de intepretação bíblica que insiste na interação entre o texto e a situação[26].

Interpretação neo-ortodoxa feminista

Não basta interpretar e entender o texto bíblico, porque a fé e a vida cristã estão entretecidas no seu contexto cultural e político. É preciso definir teologicamente o que constitui a verdadeira Palavra de Deus e o cerne da mensagem cristã. A hermenêutica neo-ortodoxa pode ser descrita como uma tentativa de absorver todo impacto das perspectivas relativizantes, mas o faz inserindo um “ponto de Arquimedes” numa esfera imune à relativização[27]. Pois:
“o conjunto de imagens patriarcais e a linguagem androcêntrica são a forma mas não o conteúdo da mensagem bíblica [...] a distinção entre forma e conteúdo, essência teológica e variável histórica, linguagem e ação divina, permite desenvolver uma hermenêutica bíblica feminista que reconhece a linguagem patriarcal da Bíblia sem conceder seu conteúdo patriarcal”[28].
Para isso Ruether[29] propõe duas premissas básicas: 1. O passado utilizável; 2. O passado não utilizável. Ela sugere com isso que toda cultura herdada é de tendência masculina e sexista,  reconhece que todas as obras significativas da cultura não apenas legitimaram o sexismo, mas fizeram algo maior, pois procuraram responder aos temores da morte e libertação da humanidade, mesmo tendo elaborado respostas em termos masculinos. As mulheres podem descobrir o elemento crítico da cultura masculina e transformá-lo de sorte que ele diga coisas que jamais se disse antes[30]. Phillis Tribs[31], afirma:
“de várias formas eles (os textos e temas discutidos) demonstram um princípio de despartriarcalização agindo na Bíblia. A despatriarcalização não é uma operação que o exegeta perfaz no texto. Ela é uma hermenêutica operando dentro da própria Escritura”[32].
Também afirma que “os gêneros gramaticais dos pronomes masculinos para Deus, não decide nem ‘sexualidade, nem teologia’”[33]. Conforme ressalta, “o modelo feminista neo-ortodoxo de interpretação tenta isolar a tradição libertadora dos textos patriarcais-androcêntricos da Bíblia”[34] e vai “da leitura de textos androcêntricos à construção de um centro de vida que gere novos textos culturais, tradições e mitologias”[35].

Hermenêutica crítica feminista da libertação

Fiorenza estabelece que:
“as várias formas de teologia de libertação desafiaram as assim chamadas objetividade e neutralidade de valor da teologia acadêmica. A instituição básica de todas as teologias da libertação, incluindo teologia feminista, é o reconhecimento que toda teologia, quer queira, quer não, é por definição sempre comprometida a favor ou contra os oprimidos”[36].
Candy Stanton ainda afirma que “a Bíblia é produto de varões e da sociedade patriarcal”[37], e esta é a razão para uma aplicação de uma interpretação Hermenêutica crítica feminista da libertação. Essa hermenêutica deve partir da ciência de que os textos androcêntricos e seus contextos sócios-históricos predominam a revelação das Escrituras e visa estabelecer uma compreensão bíblica isenta de dominação. O intérprete deve enxergar além dos preconceitos. Os textos não devem ser reclamados como comunidade contemporânea de mulheres que lutam pela libertação, mas também devem reclamar suas irmãs antepassadas como vítimas e sujeitas participantes na cultura patriarcal[38]. A ideia é de reconstruir o mundo histórico dos primórdios cristãos a partir de um empreendimento hermenêutico feminista da libertação.[39] O objetivo é desafiar fundamentalmente os estudos bíblicos como interpretações textuais objetivas e reconstruir histórias que se pretendem de valor neutro[40]. Todos os textos cristãos primitivos estão formulados em linguagem androcêntrica e condicionados por seu ambiente histórico patriarcal, portanto, revelação e verdade bíblicas dão-se somente nos textos e modelos interpretativos que transcendem criticamente os seus quadros patriarcais e permitem uma visão de mulheres cristãs como sujeitos e atores históricos e teológicos. Esta visão permite uma compreensão crítica das raízes e mecanismos particulares da opressão e luta das mulheres por libertação na cultura e religiões patriarcais.[41] Uma reconstrução crítica da opressão dentro das relações e comunidades bíblicas, assim como também uma análise das justificativas teológicas e conceituais deve, pois, estar baseada numa visão bíblica de interpretação feminista da libertação.[42] A atitude de defesa dos oprimidos deve-se corroborar no momento da avaliação crítica feminista de textos e tradições bíblicas e de suas pretensões de autoridade. A hermenêutica crítica feminista deve recuperar todos os elementos dentro de textos e tradições bíblicas que articulam as experiências e visões libertadoras do povo de Deus[43] e somente as tradições e textos que rompem criticamente com a cultura patriarcal e suas estruturas têm autoridade teológica de revelação.[44] A compreensão da hermenêutica das Escrituras como protótipo não só dá espaço como também requer a transformação dos seus próprios modelos de fé. (protótipo: paradigma que afirma estar criticamente aberto para uma possibilidade de sua própria transformação. Arquétipo: paradigma que afirma ser uma forma ideal que estabelece um padrão atemporal e imutável)[45]. Uma hermenêutica crítica de libertação compartilha a atitude de defesa dos teólogos da libertação, mas ao mesmo tempo elabora não só a opressão das mulheres, mas também o poder das mulheres como locus da revelação.[46] “Uma hermenêutica crítica de libertação deve, pois, analisar cuidadosamente a patriarcalização teológica e estrutural do Novo Testamento e das igrejas ‘patrísticas’ sem passar com demasiada pressa à apologética bíblica ou a um desinteresse histórico”[47]. Uma hermenêutica crítica de libertação deve procurar “desenvolver um método crítico de análise que permita a mulher ir além de textos bíblicos androcêntricos a seus contextos sócio-históricos”[48] e deve buscar “modelos teóricos de reconstrução da história, que coloquem as mulheres não só na periferia mas no centro da vida e da teologia cristãs”[49]. Uma hermenêutica crítica de libertação deve “desenvolver modelos interpretativos teóricos que logrem integrar as tradições e os textos assim chamados contraculturais, heréticos e igualitários, em sua reconstrução compreensiva da teologia e história escriturísticas”[50].

CONSIDERAÇÕES SOBRE A HERMENÊUTICA FEMINISTA

A hermenêutica feminista coloca em xeque toda a autoridade das Escrituras, mesmo que não afirme isso diretamente. Nas suas abordagens ela apresenta claros objetivos de desconstruir as leituras (textos das Escrituras), que, segundo os seus pressupostos estavam sedimentados debaixo de estruturas patriarcais, isto é, foram homens que escreveram a Bíblia  e deram um tom sexista na mensagem.
            Esse tipo de hermenêutica insiste em afirmar que as Escrituras omitem temas femininos, porque os conceitos androcêntricos estavam minando a verdadeira mensagem. Os seus defensores apostam que os temas teológicos apresentados nas revelações escriturísticas são posições dogmáticas, já tomadas por homens dominados pela cultura patriarcal.
            Para a hermenêutica feminista, a verdadeira mensagem revelada está obstruída pelas tradições e interpretações de homens. Os seus defensores afirmam contundentemente que a Bíblia foi escrita por homens e reflete o interesse masculino dos seus autores.
            As propostas da hermenêutica feminista deixam a cargo do intérprete suas próprias conclusões a respeito do texto bíblico, portanto esse tipo de hermenêutica nada difere da hermenêutica alegórica ou da hermenêutica lectocêntrica, em que o intérprete ou o leitor é o senhor do texto. E por fim, acabam roubando completamente a autoridade das Escrituras.
            Eu sugiro que o leitor adote a  hermenêutica de abordagem histórico-literal a qual faz o possível para retirar do intérprete o poder sobre o texto. O objetivo dela é dar ao estudante das Escrituras princípios práticos e claros para que ele descubra qual é a mensagem ordenada numa determinada porção da Palavra de Deus.
            Uma confrontação entre a hermenêutica feminina e a histórica-literal comprovará claramente que os princípios de interpretação da hermenêutica feminista enfraquecem consideravelmente a inspiração e a  canonicidade das Escrituras, como também permite ao intérprete dar o sentido auto desejado ao texto bíblico. Portanto, esse tipo de abordagem deve ser completamente rejeitado se o intérprete aspira por uma compreensão sadia do texto.

Pr. Wagner Ferreira


Pr. Wagner é casado há 20 anos com Rita Ferreira, pastor há 12 anos da PIB de Cambuí-MG. 
É mestre em Teologia -NT, pelo SBPV, Bacharel em Teologia - SBPV.
Atua também como professor do Ministério Pregue a Palavra.
                      
                      





Referências

[1] SCHOER, Silvia. Exegese Feminista, Resultados de pesquisas bíblicas a partir da perspectiva de mulheres. São Leopoldo: Editora Sinodal, Leopoldo/RS; São Paulo: Editora ASTE, 2008. , p. 83
[2] Ibidem, p. 86.
[3] Idem.
[4] Idem.
[5] Idem.
[6] Idem.
[7] Ibidem, p. 87.
[8] FIORENZA, Elizabeth S. As Origens Cristãs A Partir da Mulher, uma nova hermenêutica. São Paulo: Edições Paulinas, , 1992. p. 26
[9] Ibidem, p. 27.
[10] Idem.
[11] Idem.
[12] Idem.
[13] Idem.
[14] Ibidem, p. 28.
[15] Idem.
[16] Ibidem, p. 32.
[17] Ibidem, p. 34.
[18] Idem.
[19] Ibidem, p. 35.
[20] Idem.
[21] Idem.
[22] Nota: Lucretia Mott (nascida em Coffin, Nantucket ,em 3 de janeiro de 1793 — falecida na Filadélfia em 11 de Novembro de 1880) foi a primeira ativista estadunidense do século XVIII e é creditada como a primeira feminista. Ela era uma Quaker.
[23] Idem.
[24] Ibidem, p. 36.
[25] Idem.
[26] Ibidem, p. 37-38.
[27] Ibidem, p. 39-40.
[28] Idem.
[29] Nota: Rosemary Radford Ruether, nascida em 02 de novembro de 1936, é uma árdua estudante feminista americana e teóloga católica. Ruether é uma defensora da ordenação de mulheres, um movimento entre as religiosas católicas que afirmam a capacidade das mulheres em servir como sacerdotes, apesar de sanção oficial. Desde 1985, Ruether tem servido como membro do conselho para o grupo pró-escolha "Catholics for Choice" (CFC).
[30] Ibidem, p. 41-42.
[31] Nota: Phyllis Trible nasceu em 1932 e é uma biblicista feminista. Trible estudou no Meredith College e Union Theological Seminary,  ensinou na Universidade de Wake Forest e Andover Newton Theological. Antes de voltar para o Union Seminary. Ela foi nomeada Professora Baldwin de Sagrada Literatura em 1980. Ela deixou o Union Seminary em 1998 para se tornar vice-reitora e professora de estudos bíblicos do novo Wake Forest University School of Divinity em Winston-Salem, Carolina do Norte. Trible serviu como presidente da Sociedade de Literatura Bíblica em 1994.  Ela é conhecida como uma das "matriarcas proeminentes da crítica bíblia feminista contemporânea", e sugere em seu artigo, intitulado “Depatriarchalizing in Biblical Interpretation” (“Despatriarcalização na Interpretação Bíblica”. JTSOR, 1973), “deve ser considerado como uma homenagem a mãe do cântico dos cânticos das pesquisadoras de estudo feminista”.
[32] Ibidem, p. 45.
[32] Ibidem, p. 46.
[33] Ibidem, p. 47.
[34] Idem.
[35] Ibidem, p. 29.
[36] Ibidem, p. 50.
[37] Ibidem, p. 56.
[38] Ibidem, p. 57.
[39] Ibidem, p. 58.
[40] Idem.
[41] Idem.
[42] Idem.
[43] Ibidem, p. 60.
[44] Idem.
[45] Ibidem, p. 61.
[46] Ibidem, p. 63.
[47] Idem.
[48] Idem.
[49] Ibidem, p. 64.

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